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Breve Conto: O último ato de Marília


Por Zanah Rios

Foi acometida por uma dor repentina, parecia que lhe arrancara o peito, dor de morte... calou-se a voz, sua cabeça rodava, sua face pálida, transfigurada, traduzia o cansaço da peleja que enfrentara durante longos tempos, e agora, ali, encontrava-se em suores frios e olhar perdido vagando num espaço sem cor. Vestida em trajes de festas, sentia-se como que revestida de trapos, tal sua condição moribunda. Lhe chamavam de Marília, podia ter sido Teresa, Maria, Joana... Era uma mulher como outra qualquer. Sua beleza estava na sua própria condição de ser e em seus gestos delicados. Seu andar macio, lembrava uma potranca balançando suas ancas de fêmea trotando livre num vasto pasto. Eis Marília! Uma puta, uma santa, uma esposa de qualquer um e de ninguém. Sem pertences e sem pertenças, nunca presa e nunca livre. Eis Marília apresentando seu último ato num palco sem plateia sem aplausos, no limiar de sua carreira de colecionadora de amantes ávidos por suas carnes, mas sem o amor que um dia sentiu e sufocou por força da obrigação e da ordem.

-Sua alma em súplicas indagava sua atual condição-

Ai de mim! Pobre de mim!Que nascida livre não tive escolhas! Onde está meu crime para que me apontem os dedos em riste e tons com notas tão graves?! Deveria ter me revestido com capas? Me maquiado ...como um palhaço que agrada a plateia cobiçosa de gracejos e galhofas?! Este é meu picadeiro! Esta é minha face! Este é meu mundo! Cada beco é um teatro aberto e os atores se apresentam sem ensaios. Ai de mim que não sei improvisar! Acaso tendo nascida humana, tenho menos direitos que um passarinho que voa no azul do céu, que ao cansar-se de seu passeio aéreo pousa para alimentar-se das dádivas que encontra?! Onde acho esta liberdade que a razão me aponta e por ela sou detida?! Sim, pois eis que os conceitos culturais erguem um muro abstrato que de tão cimentado impede que a mais leve brisa transite e aire os discursos mofados, carcomidos pela hipocrisia social! Haverá cidade mais dura que aquela que existe dentro de cada homem, construída por pedras escritas e sentenciadas por seus próprios receios de absterem-se dos elogios, de terem de ser exemplos, segundo as regras constituídas sabe-se lá porque?... Por quem? Quem é maior que eu nesta hora onde encontro o fim comum a todos?! Acaso meu coração não bate e bombeia o sangue vermelho e quente, símbolo da vida!? Não são meus músculos revestidos por uma pele que rasgada, abre feridas propensa a infecções danosas e fétidas?! E meus olhos! Ah! Os meus olhos que tanto enxergaram o belo, não vislumbraram também as mesmas águas correntes do mesmo rio em que banhastes teu corpo?! Ah! Os meus olhos ! Que outrora infante, ingênuos, percorriam os frutíferos pomares , ficavam encantados pelas formas de suas flores e frutos, vocacionados a alimentar e dar sabor ao paladar! Serei menor que estas frutas que livre de pensamentos cumpre seu destino certo?! Poderei eu ser destinada, se nasci sem nome e sem roupas, sem o saber ter nascido?! Também fui alimentada e servi de alimento a tantos famintos que saciaram-se no afeto que ofertei! Onde estarão os que me lamberam a boca e cuspiram na cara?! E aqueles que ao me reconhecerem ao passar, viraram o rosto, fingindo desdém?! Quando depois de fartar seus instintos animalescos pagaram com notas o silêncio da moradia breve! Ai de mim! Que sentindo esta dor, busco apenas uma face amiga e amante que absterei no subentendido universo da minha paixão! Tua face não mais imerge, a memória é fraca, a esqueci assim como a teu cheiro, nada mais vejo ou sinto! Que valor tem minha vida agora?! Se nem a ti a quem tanto resguardei ao ponto de calar o desejo que sentia, posso neste instante encontrar as linhas, os traços tão queridos! O que ficou se não a lembrança de um amor subjetivo e subjugado, forçado pelas imprecações subordinadas a implícita ética impregnada de manchas, que maculam os sonhos de alcançar a perfeita identidade de sermos aquilo para o qual fomos gerados! Não, não me digam que tive escolhas, quando por muitos fui empurrada e marcada como gado! Se por vir ao mundo já cometi um crime, meu maior presente será morrer, assim quem sabe prestarei maior serviço a esta terra que me acolheu! Serei melhor alimento aos vermes que o fui aos homens. Certamente terei maior recompensa, mesmo neste momento onde mais uma vez não tive escolha, pois, este é o caminho de todos os seres, sejam racionais ou não! Ai...que esta dor me aperta! Alucina e insiste em sinalizar que ainda vivo! Porque resistis vida minha?! Te entregues ao berço manso que te espera. Me esvaio em suores...Estou desfalecendo, tudo é cinza... é chegado o momento de atravessar a porta, estou indo plácida, acabou a dor, o delírio, olhando para traz, percebo apenas um copo pálido e marmorizado, ao olha-lo, indago pela última vez. Quantos mundos haverão de existir para que os homens formem apenas um?!

Fez-se silêncio em Marília...ninguém percebeu seu estado até o dia seguinte quando coletaram o lixo da cidade. Ela estava encolhida numa calçada, seus pés na sargeta, seu dorso na calçada. Sem cortinas e sem aplausos levaram-na para o IML.

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